domingo, 12 de setembro de 2010

O Escort Prateado


Escrito em parceria com
Eliana A. Paiva S. Fernandes

...Não pegava nem com reza brava. A chave estava prestes a quebrar, quase dando um giro de 360°, mas o motor não funcionava!
Já estava ficando irritado com o belíssimo Escort Prata 83, quase semi-novo, que pedi emprestado e consegui depois de muita insistência e uma nota de 50 reais, ao meu colega Vigilante. O caso é que como estava aprendendo a dirigir e ainda não possuía nem uma bicicleta velha, queria impressionar minha bela esposa, com os meus talentos automobilísticos.
Bem, mas depois de muitas aulas técnicas do meu amigo vigilante, me ensinado alguns "macetes" do carro, como, desligar o carro e virar a chave para economizar gasolina, consegui fazê-lo andar um quilometro em linha reta. Até que ao chegar numa curva, o danado resolveu não me obedecer, travando a direção e voltando ao mundo dos mortos, empacando bem ali, no meio da curva da estrada.
Virei às chaves, com a técnica ninja que aprendi com meu amigo, liguei o motor e fingi que nada aconteceu. Continuei em linha reta após a curva, mesmo sendo contramão, pois o coitado do Escort Prateado esquecera o que era marcha-a-ré.
Enfim cheguei à cidade feliz da vida, me sentindo o "tal", naquele Escortão Prateado, afinal aquele carro não estava tão ruim assim: a lataria fora remendada usando-se apenas três carros (poderia ser pior, tipo o Frankstein, um pedacinho diferente em cada parte). O prata tinha cinco tonalidades diferentes (parecia carro estilizado, era muito chique!). Atrás não tinha banco (para caber mais bagagens ou lavagens que meu amigo costumava carregar pra alimentar seus porquinhos) e na frente os bancos saltavam as molas (parecia que estávamos andando á cavalo, ou pulando numa cama d'água). E além de tudo isso era um quase autêntico Ford, com a maciez que poucos carros novos têm.
A única coisa chata é que o antigo dono do Escort 83, um playboyzinho, tinha cortado as molas do carro, e ele já estava ficando quase sem assoalho de tanto se esfregar nos quebra molas da cidade.
Apesar de tudo isso, eu ainda tinha um sonho, assim como Martin Luther King tinha um sonho: queria impressionar minha esposa!
Por isso não desisti e segui em frente, cheguei em casa e convidei a minha amada para uma volta de carroça, digo, de carro.
Sendo ela uma verdadeira dama e companheira de aventuras, não me negou essa honra. Apenas manifestou com os olhos esbugalhados, certo temor de "afundar" no chão, quando de dentro do carro viu o asfalto debaixo de seus pés pelos furos do assoalho. Mas tudo bem. E assim fomos pela estrada afora, cantando uma musica do Legião, já que o rádio havia quebrado, o jeito era improvisar no ao vivo mesmo.
Íamos levar o veiculo até a guarita (de onde nunca deveria ter saído) até que no meio do caminho surgiu um quebra-molas, havia um quebra – molas no meio caminho... Tão sinistro quanto o Godzilla, e maior que o King Kong, e causou um ruído arrepiador embora o carro estivesse leve e eu passasse de lado.
Chegando de frente a um boteco, á umas duas esquinas a frente do quebra-molas-assassino, o carro "morreu". Achei estranho, pois tinha abastecido meio tanque e embora aquele carro fosse gastador, tinha rodado muito pouco para ter acabado o álcool.
Fiquei tentando dar a partida, parado ali, bem no meio da rua, e quanto mais eu insistia, mais ouvia um "... nãnãnãnãnãnãnãnãnãnãooooooo..." do motor, além do cheiro forte de álcool, que pelo visto, não era do boteco, pois estávamos com os vidros fechados.
E de repente, apareceu um anjo da guarda, um pouco mais "alto" que de costume, e perguntou o que havia acontecido. Expliquei que quase havia sido abduzido pelo gigantesco quebra-molas e assim apareceu uma legião de "anjos- manguaceiros" para ajudar. Foi um tal de: "vai", "agora", "põe uma segunda", "pisa", "agora solta"...
E o cheiro de álcool ficava mais e mais forte. Mas o carro não reagia aos trancos solidários e não funcionava.
Foi quando um dos meus ajudadores resolveu olhar debaixo do carro, por estar escuro (na concepção dele, pois ainda estava claro) e acendeu um isqueiro.
Minha esposa levou um susto, pois o cheiro de álcool que vazava era quase insuportável e quis sair do carro, mas não deixei. Arrisquei tê-la "torrada", mas dentro do carro, que ver os marmanjos olhando para a beleza dela. Vai entender o amor não mesmo?!
E o isqueiro clareou mesmo, o suficiente pelo menos para vermos a mangueirinha que mandava o álcool do tanque ao motor solta. Certamente por causa do Godzilla quebra-molas, ou um de seus filhotes, que agarrava o assoalho a cada passada.
E para relaxar a tensão, o carinha do bar, ainda meio são, acendeu um cigarro e enfiou a cabeça debaixo do assoalho, com uma enorme dificuldade. E com o isqueiro aceso segurado por mim – que solução? – ele foi trocando cigarro de mão até conseguir a melhor posição e ligou as pontas da mangueira.
Pronto. Esperei meio segundo e liguei o carro, que dessa vez pegou.
Agradeci aos meus anjos da guarda do boteco, pela sua imensa prontidão em nos ajudar sem pedir nada em troca, e acima de tudo a Deus, pois pude constatar que Ele realmente existe.
(2010)

Antes das Seis

Mais devagar que um megatério
Vou me movendo
Irei as seis ao necrotério
Ver quem está morrendo.
 
Até pode ser eu mesmo
Que perdi a fé na vida
Falta de esperança
Uma viagem comprida!
 
Luzes que se apagam
Ilusão e imitação
Tudo perdido
Como um teorema sem demonstração.
(1997)
 

O Vigilante da BMV Azul e o Fim do Mundo


Eram vinte e três horas quando o Vigilante da ronda apareceu na guarita.
Conversavam animadamente sobre o fim do mundo. A expectativa era total, pois em menos de uma hora chegaria o tão polêmico ano dois mil e se os antigos estivessem certos, o mundo iria acabar: "Mil chegará, mas dois mil não passará"- muitos avôs e avós diziam por aí e que na década de oitenta era uma verdadeira profecia!
_Será que nossos revólveres dispararão sozinhos por causa do "bug" do milênio?
_Não sei – respondeu timidamente o outro Vigilante que nem sabia o que era isso _só sei, continuou ele, que eles já não disparam mais desde há muito antes desse tal "bug" do milênio, por causa da ferrugem e da munição velha e molhada. De qualquer maneira sei que, esse tal "bug" chegando ou não, a besta apocalíptica chegará e marcará a ferro de marcar vaca o numero 666 na cabeça, ombro, joelho e pé de cada um de nós!
_Bobagem! Primeiro que os Direitos Humanos não permitiria tal selvageria dessa besta, ainda que se chame assim. E depois, para que ser tão violenta? Isso é tortura! Sem falar que quando Apocalipse a descreveu era o ano de 96 AD. Agora imagina só o quanto essa besta não deve ter evoluído em mais de mil e novecentos anos? No mínimo ela usará anestesia e implantará "chips" na gente, marcando assim todos os seus. Sem falar que se fosse marcar a maneira antiga, de acordo com a profecia, marcaria a mão e a testa e não o corpo inteiro!
_E como será sua cara hein? – perguntou o curioso vigilante.
_Espero que menos assustadora que a cara de fuinha da Condolleza Rice.
_Rapaz, não tinha pensado nisso, a Condolleza é a estagiária da Casa Branca, daquele escândalo e...
_Ficou louco? A do escândalo é a Monica Lewinsky. Essa, a Condolleza Rice, que manda no homem mais poderoso da Terra!
_Deus?
_Que? Deus é o homem mais poderoso do céu!
_O Papa então?
_Companheiro, o homem mais poderoso é o Presidente Bush!
_Ah!...
E nessa conversa animada, perceberam que faltava cinco para a meia noite, e o céu, parecia mais claro agora que minutos atrás (seria por causa da chuva de fogo?) parecia fazer calor do dia naquela noite quase fria, noite que agora parecia escurecer sob suas cabeças num negro presságio.
A cada "tic" e "tac" o ponteiro dos minutos empurrava o ponteiro que marcava as horas mais para a direita, mostrando claramente que o tempo da terminação desse mundo se aproximava mais e mais.
Pensando assim, ambos utilizando-se do telefone da guarita, falaram com as esposas pela última vez. Os dois eram crentes, mas por via das dúvidas benzeram o corpo com o sinal da cruz e fizeram promessas desesperadas  a Aparecida. Abraçaram-se e fecharam os olhos, esperando o fim, o fogo, a besta, ou todos de uma vez!
Mas antes, em nome da dignidade, ajeitaram a gola da surrada camisa de uniforme, amarraram um nó por cima do laço do cadarço do coturno sem graxa, deram uma reboladinha para levantar a calça, apertaram a fivela do cinturão de couro e municiaram o trinta e oito velho e enferrujado com as velhas e molhadas balas que pareciam realmente 'chupadas'.
E dos aguardados, quem chegou primeiro? Para surpresa deles foi o Sô Zé!
O Sô Zé, velho funcionário da Instituição, morava na residência funcional, conhecida por 'colônia'.
Ele chegou com duas cervejas geladas, um pratinho com farofa e maionese e churrasco quentinho noutro prato, a fim de que os Vigilantes não ficassem com fome ou se sentissem sozinhos naquele Réveillon tão esperado por todos.
E apesar de estarem fora de casa, tiveram ao menos a alegria de fazer uma boquinha (principalmente porque Vigilante quando vê comida é igual Policial americano quando vê rosquinha!).
E o mais interessante de tudo foi que quando da verificação da autenticidade dessa historia, eles não se lembraram do ocorrido. Disseram com certa convicção que nada aconteceu e que essa historia é intriga da oposição.
Outro problema sem solução foram as garrafas encontradas dentro da guarita ao amanhecer. Eles teriam bebido a cerveja em serviço? A alegação deles sobre esse assunto e todo o resto, é que tiveram um sonho, muito real por sinal, sobre isso, mas..., nada mais que um sonho, reiterando que o que foi alem disso, não passava de intriga da oposição ou inveja de outros Vigilantes por serem tão dedicados no serviço e não perderem tempo com divagações, claro (...).
(2006)

Caia


Acrilex é tinta para tecidos
Nanquim papel
Esmalte é tinta de unhas e
Látex pinta paredes de ricos, e a cal caia.
Caia a parede dos pobres!
(1997)